Edifício Papillon, 46
EPISÓDIO 1
Caro leitor,
Este corpo sem vida que você está vendo estendido no parquê da sala é meu. Pois é, eu morri.
Do alto de meus 46 anos, eu, Caio Duarte, produtor cultural de relevância e de respeito nesta cidade, fui assassinado dentro do meu apartamento burguês, meticulosamente decorado e perfeitamente organizado. E agora, olhando para a poça do meu próprio sangue que começa a secar no assoalho, posso afirmar com a autoridade de quem tem tempo de sobra: a morte é uma experiência didática.
Este é um convite para que você venha conhecer comigo toda a verdade, sem rodeios ou formalismos.
As pupilas do produtor cultural Caio Duarte estão dilatadas e fixas. Uma lágrima quase seca desce seu rosto, caído no assoalho de madeira. Caio está morto, mas não abandonou este mundo. E ele resume os acontecimentos que precederam seu fim: foi à feira, fiscalizou a montagem de uma peça teatral e combinou por aplicativo um encontro com um rapaz desconhecido.
Até que seu corpo é encontrado no amplo e confortável apartamento 46 do Edifício Papillon, um decadente prédio art déco no centro.
Sem porteiro, sem câmeras.
O policial civil Lucas Nogueira, da 23ª Delegacia de Polícia Civil, é chamado para a cena do crime. Esta não é uma vítima qualquer. Lucas reconhece o prédio, a apartamento e o corpo estirado no chão, mas não revela isso aos colegas. Do além, mas presente no mundo dos vivos e tomado pela tranquilidade sarcástica de quem sabe toda a verdade, Caio comenta tudo quando os policiais chegam no apartamento, e sua gata Ritalina foge pela janela.
Os agentes recolhem fios de cabelo, procuram por digitais e tiram fotos: um pequeno rebite de metal no chão, um número de telefone escrito num bloco de anotações e um panfleto de uma sauna gay. Uma leve marca de poeira sobre uma prateleira denuncia que a coleção de três macacos sábios de vidro está incompleta: falta o macaco que cobre os olhos, aquele que não vê o mal. No quarto do morto, a cama de casal está arrumada. Tudo parece em perfeita ordem, com exceção de uma longa rachadura na parede acima da cabeceira. A visão daquele cômodo traz uma lembrança à mente de Lucas: o morto e o policial eram amigos de infância e viveram uma intensa noite íntima semanas antes, naquela mesma cama. Afastando a memória, Lucas pede para a perícia tentar localizar o celular da vítima, mas o aparelho está desligado.
No Opala verde do policial, Caio acompanha o amigo quando ele atravessa a cidade para dar a péssima notícia aos pais do morto. Lucas promete a eles que encontrará o assassino. Abalado, ele liga para a namorada Naiara a caminho de casa e pede desculpas por acordá-la. Ela percebe que o policial precisa de atenção e, quando Lucas chega em casa, a encontra esperando por ele na porta. Com a namorada deitada no peito, o policial tenta dormir.
No dia seguinte, o fantasma de Caio acompanha os trabalhos dos técnicos de necrópsia em seu cadáver e fica ao lado do pai, enquanto ele reconhece o corpo do filho no IML.
Em outro ponto da cidade, Lucas alivia a tensão praticando judô. Uma piada de um colega leva o policial à beira do descontrole, e Lucas quase dá uma surra no amigo. Pouco depois, sozinho no vestiário, Lucas relembra a noite que teve com Caio, enquanto o fantasma, molhado e com uma toalha em volta da cintura, filosofa com o policial, como se ele pudesse ouvi-lo, e diz: “Você precisa encontrar o culpado”.
Horas depois, a repórter Ana Paula está diante do portão do cemitério, entrevistando Lucas para o canal local. O policial explica o pouco que descobriram do crime e pede aos espectadores por informações que possam ajudar nas investigações.
Depois do enterro, Lucas encontra os filhos, a ex-mulher e o novo marido dela. Juntos, eles vão à Igreja Assembleia da Salvação, liderada pelo pastor Elias Matos. Enquanto o pastor Elias dá um sermão contra a “agenda do demônio”, Lucas tem uma troca de olhares estranha com o filho do religioso, que o observa de forma enigmática.
Com o raiar do dia, o despertador na mesa de cabeceira acorda o policial. Por trás do abajur ao lado de sua cama, uma pequena rachadura começa a formar-se na parede. Pouco tempo depois, Lucas está preparando os filhos para a escola, quando recebe uma ligação da colega Leila, dizendo que um jovem está na delegacia, alegando ter pistas do assassino. O celular do policial apita durante a ligação. É uma mensagem enviada do celular de Caio:
“Eu sei o que aconteceu naquela noite.”